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masculinidade e carnaval
Machismo

Masculinidade e o Carnaval

By: Sérgio Barbosa

Ninguém contesta que o carnaval seja a grande festa popular brasileira. Data por muitos esperada e por diversos motivos culturais, sociais, financeiros e religiosos marca o começo do ano no Brasil. Mas o que existe por detrás desta festa popular que evidencia o perverso jogo das relações de dominação do homem sobre a mulher? O que realmente esta folia, onde reis e rainhas são erigidos em nome da alegria? Que tipo de orgia limita e determina as desigualdades entre mulheres e homens? Afinal, quem é o grande beneficiário desta tradição carnavalesca?

Num passado não muito longe, letras de samba enalteciam os valores de uma verdadeira mulher:

“Eu quero uma mulher, que saiba lavar e cozinhar
Que de manhã cedo, me acorde na hora de trabalhar
Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz
Emília, Emília, Emília, eu não posso mais
Ninguém sabe igual a ela
Preparar o meu café
Não desfazendo das outras
Emília é mulher
Papai do céu é quem sabe
A falta que ela me faz
Emília, Emília, Emília, eu não posso mais..”

Wilson Batista e Haroldo Lobo

Estas projeções da masculinidade não desapareceram

Elas estão presentes, não como uma opção, mas como uma obrigação. Um papel a ser cumprido pela mulher que deseja ser reconhecida pela sociedade. E nesta letra estão os domínios econômicos (lavar e passar), controle (sem ela não vivo) e poder (a falta que ela me faz). Tudo isso batizado com uma pitada religiosa (Papai do céu é quem sabe). A masculinidade elabora teias que aprisionam, mesmo durante a realização de uma festa, os sonhos e desejos das mulheres. Privam que haja uma festa libertadora e libertária de antigos e remotos conceitos que definem o papel da mulher e do homem na sociedade. Estruturam a violência como guia do relacionamento amoroso onde o fim deste é a morte:

“Você não é mais meu amor
Porque vive a chorar
Prá seu governo
Já tenho outra em seu lugar
Pedi para voltar
Porém você não me atendeu
Agora o nosso amor
Prá seu governo já morreu.”

Haroldo Lobo – Pra seu governo

Podemos achar que são letras antigas

Infelizmente, as músicas ainda tocadas em carnavais reproduzem com igual ou maior crueldade esta situação (falamos sobre a Nova Masculinidade nesse artigo aqui de nosso blog). Depois de dar tudo para a donzela há um preço e uma ameaça:

“Mas se ela vacilar, vou dar um castigo nela
Vou lhe dar uma banda de frente
Quebrar cinco dentes e quatro costelas
Vou pegar a tal faixa amarela
Gravada com o nome dela
E mandar incendiar
Na entrada da favela.”

Zeca Pagodinho-Faixa Amarela

O carnaval poderia ser o lugar da transcendência

Onde homens e mulheres pudessem ser o que quisessem ser. Vestir a fantasia. Mas o que vemos, não é a transcendência de costumes ou valores. A masculinidade determina que o carnaval seja uma festa do consumo de objetos, de corpos objetificados. A sexualidade não é discutida nem refletida. Onde seria um espaço oportuno para quebrar com antigas convicções, passa a ser um espaço de justificação do poder do homem sobre o corpo da mulher. Infelizmente sobe o número de agressões, de violações, de estupros. É uma festa. É uma comemoração. É um tempo para poder realizar aquilo que durante o ano todo não pode. Mas mesmo assim, o que vemos é um reforço de uma masculinidade que já está carente. Que já está se esgotando em si mesma. Dando sinais de morte. Porém, como sabe que está no fim, tende a usar de todos os meios para garantir seu lugar na passarela.

É necessário se reinventar. A masculinidade não precisa mais de alegorias para ser feliz. É necessário retirar as máscaras. Homens podem e devem demostrar seus sentimentos afetivos. Podem e devem compartilhar segredos. Sair deste carro alegórico que, infelizmente, só produz notas baixas. É necessário inventar um novo enredo para que haja uma harmonia e o samba poder passar.

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